segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Aplicativos, o início da escravidão do taxista.

Os serviços de táxi sempre foram atividade profissional, um oficio através do qual pessoas físicas levavam sustento as suas famílias. Salvo raras exceções, não existiam empresas se apropriando da força de trabalho destes profissionais.

O mercado de taxi, só na cidade do Rio de Janeiro, movimenta aproximadamente 6 bilhões de reais por ano e toda esta riqueza ficava com os próprios taxistas. Um mercado onde a democracia econômica era próxima da perfeição.

Barreiras legais impediam o ingresso de grandes corporações neste mercado. Mas, a tecnologia possibilitou uma alteração neste quadro. Com a ampliação do uso da internet móvel e popularização dos smartphones, novos meios de contratação de serviços começaram a surgir, inclusive no mercado de táxi.

Por muito tempo, em uma época onde as comunicações eram precárias e os meios de pagamento escassos, as cooperativas foram a inovação neste seguimento, elas aproximavam taxista e seus clientes através de sistemas de radiofrequência e possibilitavam o faturamento do conjunto de corridas realizadas.

Com o avanço das comunicações e a diversificação dos meios de pagamento a operação das cooperativas começaram a se tornar obsoletas e precisaram inovar mais uma vez.

Passaram a adotar pagamento por cartão de crédito e investiram pesadamente em sistema de despacho de corridas mais ágeis e modernos com o uso de GPS, se preparando para migrarem para os vouchers eletrônicos.

Muitas chegaram a investir mais de 1 milhão de reais para modernização, entretanto, mesmo antes da implantação por completo destas tecnologias, uma nova onda de inovação surgiu no mercado e desta vez, não pelas mãos das cooperativas e taxistas, mas, de empresários que pretendiam ingressar no setor.

Com o surgimento dos aplicativos, mesmo antes de recuperarem os investimentos realizados, uma vez que esta última onda tecnológica surgiu menos de 2 anos após a implantação dos sistemas de GPS nas centrais de chamada, as cooperativas se tornaram mais uma vez obsoletas e desta vez ganham um concorrente mais ágil, moderno e barato, tanto para o taxista quanto para os clientes dos serviços de táxi.

Para ganhar mercado, estas empresas necessitavam de carros e para isto passaram fornecer seus serviços sem custo para os taxistas ou com custos baixos, bem mais baixos que os das cooperativas. Na medida em que se popularizavam, mais e mais empresas ingressavam no mercado, despertando a atenção de grandes investidores.

Temos estudado este fenômeno desde de seu início e já a mais de dois anos temos alertado as cooperativas de táxi para esta situação, recomendado a criação de um aplicativo único e nacional como uma medida urgente e essencial para modernização da operação, melhor atendimento as demandas de clientes e taxistas, redução de custos e sua sobrevivência no mercado.

Entretanto, as lideranças não se sensibilizaram ou criaram aplicativos próprios com a falsa impressão de que bastava o meio eletrônico de contratação do serviço para se manter no mercado. Mas, isto era só mais um meio de “queimar” corridas e queimar a cooperativa comercialmente.

Os aplicativos estão cada vez mais modernos e ganhando mercado, inicialmente atuavam só no varejo e agora buscam todos os seguimentos, incluindo licitações públicas, portos e aeroportos (no Galeão já tem aplicativo).

Os taxistas, iludidos com uma vantagem imediata tem visto as cooperativas como um mal, um custo absurdo e desnecessário e migrado para os aplicativos que cobram pouco ou nem cobram, gerando as mesmas quantidades de corridas. Muitas cooperativas já começam a sentir o impacto da concorrência desleal.

O fato é que ninguém investe dinheiro para ofertar serviços gratuitos, nenhum Banco investiria nos aplicativos para não ter um lucro grande.

Hoje podem até cobrar barato, mas, em breve, os taxistas iludidos por uma suposta redução de custos operacionais, deixarão de exercer livremente sua profissão para se tornarem empregados destas empesas.

Não existe almoço grátis, está é uma máxima comum entre os taxistas, mas, parece que se esqueceram disso.

É comum nos mercados capitalistas a fusão ou a compra de concorrentes e logo que o mercado de aplicativos se consolidar, o que não está longe, uma empesa comprará a outra, sobrando, no máximo, 03 ou 04 grandes operadoras.

Logo estas operadoras dominarão o mercado de varejo e atacado nos serviços de táxi, bem como as principais corridas e não existindo cooperativas fortes o taxista não terá outra opção que não seja trabalhar para eles.

Mesmo aquele que sempre trabalhou no “rolé” terá dificuldades, pois, as empresas criarão atrativos como serviços de bônus, pagamentos por cartão, descontos, acesso a serviços e conteúdos on-line.

Logo a maior parte da população terá acesso a internet móvel e não desejará pegar um táxi no “rolé” por que perderá vantagens.

Uma vez consolidado o controle de mercado, é difícil mudar o fluxo. Exemplo simples que podemos dar pode ser visto em nossas casas. Cada vez mais pessoas tem TV por assinatura, mais de trezentos canais, mas, o canal mais assistido certamente é a Rede Globo, certo?

Quando isto se consolidar, em mais dois anos talvez, as operadoras de aplicativos que receberam investimentos milionários e rodaram no prejuízo para formar sua frota, enquanto conquistavam o mercado de clientes dos serviços de táxi, passaram a cobrar percentual das corridas.

Algumas já fazem esse tipo de cobrança e exigem que mesmo corridas pagas em dinheiro sejam registradas no sistema. Entretanto, o taxista ainda acha barato, pois, as cobranças ficam na casa dos 3%.

Mas, muitas destas empresas investidoras, muitos destes bancos que aportaram capital nestas operadoras de aplicativos, fora clientes das cooperativas. Muitas recebiam descontos na casa dos 20%. Então sabem que o taxista suporta pagar pelo serviço de intermediação de corridas o percentual de 20%.

Eles também fizeram uma conta simples, verificaram que além dos 20% os taxistas pagavam em torno de 15% com rateio de despesas para as cooperativas e esse é o target, esse é o objetivo destas empresas.

Dominar o mercado até que possam estabelecer os preços dos seus serviços na faixa de 35%, uma vez que o mercado já suportava estes custos. As empresas não são o mal, mas, isso é negócio e quem investe quer retorno máximo.

Assim, ingressaram em um mercado de 6 bilhões/ano, que lhes era restrito, sem ter de investir em carro, contratar empregados ou mesmo assumir o risco da operação e ainda ficam com 35%.

Mas certamente, não vai parar por ai, pois, logo se exigirá preferência na contratação de seguros e financiamento junto ao Banco investidor, logo exigirão a inserção de publicidade nos veículos (isso já está acontecendo) e retirarão do taxista o poder de ganhar dinheiro com outros negócios associados ao táxi.

Mas a categoria não está vendo isso ainda, e certamente não acreditará nesta possibilidade até que ocorra, mas, quando ocorrer será tarde.

As cooperativas precisam mudar sua gestão, profissionalizar sua atuação e ofertar os mesmos benefícios que os aplicativos, mas, para isso terão de fazer um aplicativo único e nacional, do contrário não poderão enfrentar a crise que se aproxima.

O taxista tem que se conscientizar de que caminha para uma escravidão e ainda que as cooperativas, atualmente precisem melhorar muito, pertencem a eles, eles têm o poder de influenciar nas decisões e até assumir a direção do negócio.

É preciso que tomem consciência de que o fato destas empresas serem mais baratas que as cooperativas no momento, é uma estratégia de domínio de mercado, é um engodo.

Como alguém opera uma empresa que presta serviços gratuitos? Não podem fazer a comparação de custos entre cooperativa e aplicativos, pois, trata-se de uma concorrência desleal e passível de investigação pelo CADE.

Notem que não tratamos das novas ameaças ao mercado dos taxistas como os car services e os aplicativos de carona remunerada, que também estão presentes nos aplicativos de táxi. Trataremos disso com mais detalhes em artigo especifico.

Mas, o fato é que somente a modernização da gestão e serviços das cooperativas aliada a conscientização da categoria enquanto tal, poderá manter a liberdade de exercer a profissão sem ter que dar até 35% do resultado do trabalho a um capitalista, perdendo ainda o direito de explorar outros negócios que poderiam aumentar a renda de sua família.

O taxista precisa perceber que o imediatismo inconsequente terá consequências. A consequência será uma “escravidão” nunca antes experimentada por esta categoria profissional.

Abdul Nasser

Professor em Direito Tributário, Societário e Regulatório de cursos in company da FGV voltados para sociedades cooperativas.


Parabéns!! Abdul Nasser
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