domingo, 20 de julho de 2014

INCENTIVO À LEITURA - EM MACEIÓ, TAXISTAS E PASSAGEIROS APROVAM A IDEIA

INCENTIVO À LEITURA.

 Em iniciativa inovadora, táxis de Maceió aderem a projeto que vem criando biblioteca móvel e colaborativa


NO MEIO DO CAMINHO TINHA UM LIVRO

Foto: MARCELO ALBUQUERQUE

Iniciativa é unânime entre taxistas e passageiros: todos adoram!

Você pega um táxi. Trânsito parado. Buzinas. Estresse. Viver no mundo moderno não é mesmo fácil, pode vir à sua cabeça. Vai levar um tempinho – ou tempão – para chegar ao destino final. Não há muito por ali, naquele pequeno espaço sob quatro rodas. O que você faz enquanto isso? Se conecta ao mundo virtual no celular, observa a paisagem pela janela, entra nos próprios pensamentos, conversa com o taxista – ou finge ignorá-lo? Na capital alagoana, é possível ir além de tudo isso e viajar, sim, mas para o mundo da leitura.

Tudo graças ao Bibliotáxi, um projeto que vem transformando táxis de Maceió e de várias cidades brasileiras em verdadeiras bibliotecas móveis – e distanciando bastante o termo de seu significado tradicional. Isso porque, segundo o dicionário, biblioteca seria “um edifício público ou particular onde se instalam grandes coleções de livros destinados à leitura de frequentadores ou sócios”. Não mais depois dessa iniciativa.

Desenvolvida dentro dos carros do Easy Taxi – aplicativo que permite a conexão direta entre taxistas e passageiros –, ela pretende fomentar a leitura e a educação. Mas não só isso. Segundo o site do programa, a ideia quer também “estimular a cultura do ‘compartilhamento’ na sociedade brasileira para que bairros e comunidades possam usufruir de cidades mais inclusivas, saudáveis e sustentáveis”.

É isso mesmo. Porque, além de móveis, as bibliotecas sob quadro rodas são, também, colaborativas. O passageiro pega o livro, pode levar pra casa e, depois, devolver em sua próxima corrida, em outro táxi cadastrado. Assim, as obras literárias vão girando de mão em mão e rodando a cidade junto com as pessoas, chegando a um número cada vez maior dos destinatários para os quais foram feitas: os leitores.

EM MACEIÓ, TAXISTAS E PASSAGEIROS APROVAM A IDEIA

Quando lançou Guia politicamente incorreto do Brasil, Leandro Narloch conseguiu irritar muita gente. Nas páginas, o autor se propõe a rever alguns conceitos sobre a história nacional e, nessa leva, não se salva ninguém. Índios, negros, samba, Guerra do Paraguai, Aleijadinho e comunistas – todo mundo teve sua história contada errada. A obra é uma das disponíveis no Bibliotáxi, que, ao contrário dela, só tem agradado quem o conhece.

Um deles é Heronaldo dos Santos, que, aos 43 anos, trabalha como taxista há 20 e diz nunca ter visto nada igual. Na biblioteca dele, está justamente o Guia... e há dois meses ele roda com a publicação no carro. “Eles me ofereceram e eu quis colocar. Gostei muito. Nunca vi nada assim, mas é tão legal! E até encurta a corrida pro passageiro, ainda mais nessa cidade cheia de engarrafamento”, opina.


Os clientes elogiam a iniciativa. “Eles gostam muito. Dizem que nunca viram disso aqui. É bom que mais pessoas podem ler, até porque aqui não tem muito esse costume de ler, né?”, conta o profissional, que acrescenta: todo mundo que entra no táxi fica curioso. “As pessoas perguntam aí explico o que é e como funciona”.

PROFISSIONAIS COMEMORAM INICIATIVA

Empolgação deveria ser o sobrenome de Robert Wagner dos Santos. Pelo menos quando o assunto é o Bibliotáxi, ideia que o taxista maceioense parece ter abraçado com todo o vigor. Atualmente, ele tem três livros em seu veículo: Istambul – Memória e cidade, de Orhan Pamuk (Companhia das Letras), A casa da praia, de Jane Green (Nova Fronteira), e Mick Jagger, de Philip Norman (Companhia das Letras).

Também há uns dois meses com as publicações em seu veículo, ele afirma ter gostado bastante da iniciativa, a qual conhece em todos os mínimos detalhes. “Os livros ficam rodando pela cidade. O passageiro pega o livro no meu táxi e entrega em outro que seja cadastrado no Easy Táxi. Foi uma parceria com a Saraiva e achei muito interessante. E tem de todo tipo: romance, suspense, história”, exemplifica.


Apesar da rotatividade, ele já sentencia: não empresta as obras a todo mundo, não. “Empresto aos passageiros que pegam táxi com frequência. Vai que empresto a qualquer um e a pessoa não devolve nem a mim e nem em outro carro? A gente não sabe a cabeça de todo mundo, né? Empresto ao passageiro que vai ler e depois devolve. O bom é que comigo sempre devolveram”.

BEST-SELLERS E CLÁSSICOS À DISPOSIÇÃO

Achar os livros dentro dos táxis é fácil: eles ficam em bolsões customizados, no encosto do banco dianteiro.
E é nesses bolsões que estão verdadeiros clássicos. Quer um exemplo? Nihonjin, de Oscar Nakasato, vencedor do prêmio Jabuti de 2012 na categoria melhor romance, pode ser encontrado por lá.

Outros, como Menino Maluquinho, de Ziraldo, e A menina que roubava livros, de Markus Zusak, também.
Na lista, que conta com mais de 100 publicações, não poderiam faltar, claro, os best-sellers. A culpa é das estrelas (John Green), As esganadas (Jô Soares), Guia politicamente incorreto da história do Brasil (Leandro Narloch), Nunca desista de seus sonhos (Agusto Cury), De malas prontas (Danuza Leão), Divã (Martha Medeiros) e Laços inseparáveis (Emily Giffin) são só alguns deles.

Para conseguir tantos títulos, além da Saraiva e seu selo Benvirá, entraram como parceiras ainda Casa da Palavra, Companhia das Letras, Editora Globo, Intrínseca, Leya, Melhoramentos, Nova Fronteira, Novo Conceito, Objetiva e Sextante.

Assim como todas elas, os passageiros também podem fazer suas doações e ajudar a aumentar o novo ideal de biblioteca móvel e colaborativa.

Clientes elogiam a iniciativa e profissionais do táxi se empolgam com novidade; até agora, saldo tem sido positivo na capital alagoana

USUÁRIOS TAMBÉM SE DIVERTEM

A primeira experiência do estudante Roosivelt Carvalho, de 21 anos, com o Bibliotáxi aconteceu na última semana. Até então, o jovem nunca tinha ouvido falar do projeto, que, para ele, é nada menos que uma ótima ideia. “Não conhecia, mas, quando vi, achei incrível. Amei, na verdade”, diz ele, que está cursando Relações Públicas da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

O único problema, conta, era não saber se a publicação em questão estava disponível para que ele pudesse levar – não havia qualquer aviso com relação a essa parte do projeto. Na dúvida, achou melhor deixar por lá mesmo, mas já sabe: da próxima, está disposto a levar para casa a obra que gostar.

“Caso o livro me pareça interessante, eu farei isso, com certeza”, afirma o estudante, que também reclama de mais um ponto durante a viagem. “Só o que me questionei foi o fato de o som do carro estar muito alto e eu não conseguir me concentrar”, destaca Roosivelt.

Já para a consultora Micheline Bezerra, de 39 anos, as experiências foram todas positivas. Para ela, que pega entre quatro e cinco táxis diariamente, o projeto é uma mão na roda na hora do trânsito estressante da cidade. Tanto que a pernambucana que atualmente mora em Maceió já tomou emprestadas duas publicações por meio da biblioteca móvel.

UM PROBLEMA: NEM TODOS SABEM USAR

Além de não estar em boa parte da frota maceioense, taxistas e usuários ainda possuem outra reclamação: nem todos devolvem os livros que pega. Segundo o próprio criador do Easy, Tallis Gomes, essa é também uma das possibilidades do projeto, permitindo que as pessoas fiquem com o livro. A atitude, porém, acaba quebrando a corrente solidária de girar a biblioteca e, acima de tudo, a literatura.

Acostumada com o conceito de algo solidário e sempre em movimento, Micheline Bezerra reclama da atitude. “A cada táxi que você pega que tem a iniciativa, já é oportunidade de ver novo livro ou mesmo ler um novo capítulo, mas pena que nem todo mundo devolve. Isso dificulta um pouco”.

O mais crítico, porém, é mesmo o taxista Carlos Alberto, que, agora, anda com o bolsão especial, que seria para os livros, completamente vazio. “Nunca me devolveram e também não trouxeram outros. Aí novos passageiros leem sobre a iniciativa e ficam me perguntando. Já estou com vontade de tirar esse bolsão daqui porque está vazio. Eu não tenho mais livros e fico esperando que o pessoal tenha a cultura de trazer. Tem muita gente que não está preparada para o projeto”, diz.


Por: LARISSA BASTOS – REPÓRTER

Foto: MARCELO ALBUQUERQUE

Todos os direitos reservados ao Jornal Gazeta de Alagoas

Edição de 20 de Julho de 2014

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